
Por Daniel Remilik
Após a visita de Vinícius Evangelista, da RK2 Seguros, e as indagações de Lucas, do C6, os educadores e a coordenação do DesKobrir foram mobilizados. Suas falas provocaram reflexões e abriram brechas para conversas que já estavam maduras para acontecer. A partir disso, foi solicitada uma reunião com Renato, gerente geral da Rede Cruzada. E foi em uma tarde, onde realizou-se o primeiro encontro coletivo entre as juventudes do DesKobrir da Rede Cruzada, da unidade Shopping Nova América
Na sala, dezenove jovens se reuniram com os educadores sociais Juliane e Gabriel, com o coordenador Daniel Remilik e com os gerentes Renato Senna e Luana Fonseca para uma conversa sobre o futuro e um território de escuta sensível, onde a presença e o diálogo se aproximam daquilo que Bell Hooks descreve como “prática de amor e liberdade”: momentos em que falar e ser ouvido deixa de ser hábito e se torna gesto de coragem.
Renato iniciou a conversa refletindo sobre trajetórias. Disse que “todo processo tem começo, meio e um novo começo, porque fins não precisam ser cortes ou rompimentos abruptos”. Foi então que as vozes juvenis começaram a emergir com força e delicadeza. Riquelme compartilhou o momento em que precisou se afastar da instituição para experimentar outros caminhos. Falou da importância do Projeto de Vida para sua formação e, ao mesmo tempo, reconheceu que chegou o momento em que precisava escolher novas rotas para continuar crescendo. Sua fala trouxe um desejo profundo de autonomia, mas também a vulnerabilidade de quem entende que crescer exige rupturas.
“O Projeto de Vida foi muito importante para mim. Me ajudou a fazer escolhas e a procurar o que preciso para chegar onde quero.”
– Riquelme, Coletivo 6.
Os jovens também destacaram como compreender seus direitos lhes deu novas lentes para olhar o mundo e ampliou seu repertório cultural. Em resposta, Renato afirmou que o compromisso da Cruzada não termina quando eles concluem o ensino médio. Suas palavras trouxeram um sentido de continuidade que confortou muitos ali presentes.
Luiza expressou uma das falas mais sensíveis da tarde, revelando que esse espaço é mais que um equipamento social; é um lugar de pertencimento, um porto onde é possível existir sem máscaras. O grupo entendeu, naquele instante, que o que esses jovens buscam na Rede Cruzada é conexão, conversas que muitas vezes não conseguem ter com suas famílias, e sobretudo, um lugar onde suas ideias não são julgadas e onde suas fragilidades podem ser compartilhadas sem medo.
“Na minha casa eu não sou ouvida, diferente daqui. Considero a Cruzada minha segunda casa e a Ju minha segunda mãe.”
– Luiza, Coletivo 6

A necessidade de um curso pré-vestibular apareceu em diversas falas. Muitos jovens expressaram o desejo de acessar a universidade e disseram como seria importante ter apoio para realizar uma boa prova. Enquanto falavam, o que se tornava evidente era que o desejo deles não é se afastar da Rede Cruzada, mas ampliar o alcance de tudo aquilo que vivenciam ali. Entre eles, ecoou uma frase que marcou o encontro:
“Eu vou sair da Cruzada, mas a Cruzada não vai sair de mim.”
– Lucas, Coletivo 6.
Outros desejos também surgiram, como ter aulas de robótica e matemática. Cada pedido era mais que uma demanda educativa; era um gesto de afirmação, uma declaração de que desejam sonhar grande, sonhar longe.
“A Cruzada é mais que um lugar, é um sentimento.”
– Davi, Coletivo 6
“Fora daqui, eu nunca senti que estava sendo realmente ouvido. Aqui sinto que as pessoas são mais verdadeiras, as coisas são mais leves, e eu tenho prazer em estar aqui.”
– Enzo, Coletivo 6

O encontro não expressou apenas demandas práticas. Foi a revelação de uma juventude que, como diz Bell Hooks, “busca espaços onde possa existir sem abrir mão de sua dignidade”. Uma juventude que enxerga a educação como prática de liberdade. Uma juventude que deseja ser acompanhada, reconhecida e respeitada em suas trajetórias.
O diálogo terminou, mas não se encerrou. Permanece vivo porque, quando jovens falam com verdade e adultos respondem com escuta, nasce algo poderoso: a possibilidade de construir comunidade e reinventar, juntos, o caminho.

Daniel Remilik é coordenador do Programa DesKobrir na Rede Cruzada e possui quase 20 anos de experiência como educador social.
Instagram: @danielremilik

