Por Thayná Pompeu e Monalisa Geovanna
“E se o tempo não fosse uma linha e sim uma espiral? Na cosmologia Bantu o tempo não é uma linha reta que separa o passado, o presente e futuro ele funciona como uma espiral.”
-Exposição Nossa Vida Bantu Museu de Arte do Rio (MAR).
Se, como nos ensina a cosmologia bantu, o tempo não se organiza em linha reta, mas em espiral, então o cotidiano da creche nos convoca a desacelerar, a abandonar a lógica da pressa e a nos implicar com mais presença no agora, compreendendo que o tempo pedagógico não se reduz a uma sequência de horários, mas se constitui na qualidade das experiências que oferecemos às crianças, na forma como nos colocamos disponíveis para o encontro e na escuta que sustenta as relações.
É nesse movimento que a organização do dia ganha outro sentido, porque há uma estrutura que orienta, mas não aprisiona, há intencionalidade, mas também abertura para aquilo que emerge, para o brincar que se prolonga porque ainda não se esgotou, para a conversa que nasce de uma curiosidade inesperada, para o gesto que se repete até encontrar sua forma, reconhecendo, como nos provoca Malaguzzi, que as crianças se expressam de múltiplas maneiras e que nenhuma dessas linguagens pode ser interrompida pela urgência adulta.


“A infância nos lembra que o caminho é tão importante quanto o destino”.
Sustentar esse tempo é, antes de tudo, sustentar o vínculo, é compreender que o colo, o olhar e a presença não são pausas no processo educativo, mas o próprio chão onde ele acontece, e que acompanhar uma criança exige mais do que conduzir atividades, exige sensibilidade para perceber seus ritmos, suas formas de estar no mundo e suas maneiras singulares de aprender, porque, como nos inspira Mia Couto, a infância não se define como um tempo qualquer, mas como um lugar que precisa ser cuidado, protegido e reconhecido em sua inteireza.

Assim, o tempo pedagógico se afirma como uma escolha ética e política, a de caminhar com as crianças sem a intenção de antecipá-las, criando condições para que possam viver suas experiências com profundidade, experimentar o mundo com curiosidade e construir sentidos a partir do que lhes atravessa, fazendo da creche um espaço onde o tempo não corre contra a infância, mas se alinha a ela, permitindo que a vida aconteça com beleza, dignidade e presença. Escolhemos assim, um tempo que acolhe a infância em sua totalidade.

Thayná Pompeu é Pedagoga, Psicopedagoga e mestranda em Educação em Ciências e Matemática. Atua na formação de professores e na gestão pedagógica na educação infantil. Apaixonada por práticas que conectam teoria e cotidiano, investiga formas de tornar a educação mais humana, significativa e possível.

Monalisa Geovanna é Professora, com formação em Processos Escolares, graduanda em pedagogia e letras. Atua na Rede Cruzada como educadora social, desenvolvendo práticas pedagógicas baseadas no brincar, na escuta e na relação com a natureza. Seu trabalho contribui na formação de crianças com autonomia, identidade e pertencimento.
Referências Bibliográfica
COUTO, Mia. E se Obama fosse africano? São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
MALAGUZZI, Loris. In: EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lella; FORMAN, George (orgs.). As Cem Linguagens da Criança: a abordagem de Reggio Emilia na educação da primeira infância. Porto Alegre: Penso, 2016.
RIO DE JANEIRO. Currículo Carioca da Educação Infantil. Rio de Janeiro: SME, 2020.

