Por Lua Fonseca
“A cultura dos povos ancestrais são as artérias do planeta.”
Ailton Krenak
A intelectual Leda Maria Martins 1 nos ensina que, “nas espirais do tempo, tudo vai e tudo volta”. É nessa compreensão de um tempo que não é linear, mas espiral, que nos colocamos a pensar os caminhos pedagógicos deste ano.
Um tempo que não apenas passa, mas retorna, reinventa, suspende e reencanta. Neste percurso, nos propomos a atravessar o tempo em suas múltiplas dimensões — presente, passado, futuro —, e tudo isso nos leva à Sankofa2: o resgate necessário para a construção do novo..

Créditos de imagem: Guilherme Sznajder
“Nas temporalidades curvas, o tempo e memória são imagens que se refletem.”
Leda Maria Martins
A memória é a linha viva que costura os nossos tempos pedagógicos cotidianos. No presente, afirmamos que cuidar é amar a vida comum, coletiva e das miudezas potentes. É no cotidiano que os territórios se revelam como mediadores de saberes, memórias, afetos, tradições e gestos que nos constituem. Transformar o ato de olhar e o ato de conhecer passa por reconhecer que a vida comum é também lugar do sentido criativo.
Ao olharmos para o passado, nos dedicamos a lembrar quem somos e de onde viemos. Suspender o tempo para vestir histórias, para nos reconectar com nossas ancestralidades e compreender que o brincar de todas as formas também é herança e pertencimento. Nele, a escuta se afirma e nos permite acolher e reconhecer as múltiplas narrativas que nos formam.


“Eu tenho tudo aquilo do passado e de agora dentro da minha memória.”
Heitor dos Prazeres
Rumo ao futuro, é tempo de inventariar e repertoriar sonhos e inaugurar coragens. É o momento de circular os ritmos da vida, criando possibilidade de projetar os mundos que desejamos construir. Entre esses tempos, Sankofa nos revela as sensibilidades de compreensão dos tempos de pausas e retornos dentro desse tempo espiralar3.
Assim, esse tempo brincante, afetivo e enraizado nos territórios abre espaço para uma pedagogia comprometida com a vida plena, que se tece como uma rede de vínculos e continuidades, em que cada vivência contribui para desenhar cartografias possíveis do Bem-viver4.

Lua Fonseca é cientista social e pedagoga, com forte atuação na área da educação.
Atualmente, é gerente pedagógica da Rede Cruzada, e contribui ativamente na formação de crianças e adolescentes.
Notas de Referência:
- Leda Maria Martins, é uma das principais intelectuais brasileiras. Criadora de um vasto repertório artístico, teórico e metodológico que tem contribuído para um denso pensamento sobre as artes, o teatro, a literatura, a filosofia, a cultura, e a performance, dentre outros. Reconhecida no Brasil e no exterior, é autora de livros de poesia e de teorias em diversos âmbitos do conhecimento. Site: https://www.ledamartins.com.br/ ↩︎
- Sankofa é uma realização do eu, individual e coletivo. O que quer que seja que tenha sido perdido, esquecido, renunciado ou privado, pode ser reclamado, reavivado, preservado ou perpetuado. O símbolo representa os conceitos de autoidentidade e redefinição. Simboliza uma compreensão do destino individual e da identidade coletiva do grupo cultural. É parte do conhecimento dos povos africanos, expressando a busca de sabedoria em aprender com o passado para entender o presente e moldar o futuro. Em outras palavras, segundo Abdias do Nascimento, Sankofa é “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Disponível em: https://ocupacao.icnetworks.org/ocupacao/abdias-nascimento/sankofa/ ↩︎
- Tempo espiralar, conceito desenvolvido pela pesquisadora Leda Maria Martins, para discutir como o corpo, a arte e a ancestralidade operam de forma simultânea entre passado, presente e futuro. ↩︎
- Bem-viver, ver mais em: https://alana.org.br/glossario/bem-viver/ ↩︎

