Por Marianna Freitas e Raquel Bernardino
“A escola tem a responsabilidade ética de acolher
todas as infâncias, seus corpos,
suas histórias e suas culturas.”
Azoilda Loretto da Trindade
Falar de memória, território, identidade e pertencimento na Educação Infantil é falar sobre as experiências que as crianças vivem todos os dias.
É observar uma criança que reconhece um canto da creche como seu lugar preferido, outra que lembra uma história contada pela avó durante uma roda de conversa ou ainda um grupo que, ao caminhar pelo pátio, encontra uma folha, uma pedra ou um inseto e transforma aquele encontro em investigação, brincadeira e conhecimento. São nessas vivências aparentemente simples que as crianças constroem relações com o mundo, consigo mesmas e com os outros.


Muitas vezes, a sociedade ainda enxerga a Educação Infantil como um espaço voltado principalmente para o cuidado. Embora o cuidado seja parte essencial do trabalho com os bebês e as crianças pequenas, sabemos que a infância é também tempo de produção de conhecimento.
As crianças chegam à escola trazendo consigo memórias, saberes, culturas, histórias familiares e formas próprias de interpretar a realidade. Mesmo muito pequenas, carregam marcas dos territórios que habitam e das pessoas que fazem parte de suas vidas.
Escutar essas narrativas, acolhê-las e transformá-las em matéria de investigação é também uma forma de reconhecer a potência das infâncias.
Ao longo desse percurso, as crianças não são apenas herdeiras de histórias, memórias e saberes. Elas também produzem cultura, recriam tradições, inventam novas formas de brincar, ocupam os espaços com seus corpos e suas perguntas e atribuem novos significados aos territórios que habitam.
Cada experiência vivida amplia essa trama coletiva de memórias que continua sendo tecida pelas infâncias. Reconhecer as crianças como produtoras de conhecimento significa compreender que suas hipóteses, narrativas, brincadeiras e modos de interpretar o mundo são formas legítimas de construir cultura e produzir saberes.
É justamente nessa perspectiva que a Educação Infantil se constitui como um espaço de encontro entre memórias herdadas e memórias que estão sendo criadas todos os dias.


Essa compreensão dialoga com os estudos de Azoilda Loretto da Trindade, grande farol para nossas práticas cotidianas na Rede Cruzada, que nos convida a olhar para a infância a partir da ancestralidade, da oralidade, da corporeidade, da musicalidade e da circularidade. Dialoga também com os estudos de Milton Santos, que nos ajudam a compreender o território para além da geografia, como espaço de vida, de relações e de construção de significados.
Encontra eco em Antônio Bispo dos Santos, Nêgo Bispo, ao nos lembrar que pertencimento não se aprende apenas nos livros, mas na convivência, nas práticas e nos modos de viver compartilhados. E se aproxima das reflexões de Ailton Krenak, que nos provoca a reconstruir nossa relação com a natureza, reconhecendo que fazemos parte dela e que não existimos separados do mundo que habitamos.
Talvez seja por isso que os registros ocupem um lugar tão importante em nossa prática. Quando escrevemos um relatório pedagógico, não estamos apenas documentando atividades realizadas.
Estamos preservando memórias, registrando percursos, reconhecendo descobertas e afirmando que aquilo que as crianças viveram merece ser lembrado. Entendemos a documentação pedagógica como um direito à memória da infância e como uma forma de valorizar as experiências que constituem cada trajetória.


Também é por esse motivo que buscamos constantemente ampliar as referências que atravessam nosso cotidiano. Ao lado de autores amplamente reconhecidos, fazemos questão de aproximar as crianças de pessoas que ajudaram — e continuam ajudando — a produzir conhecimento, arte, cultura e formas de existir no mundo, mas que nem sempre recebem o destaque que merecem.
Em sua maioria, são intelectuais, artistas, educadores e lideranças negras e indígenas cujas contribuições foram historicamente invisibilizadas. São histórias como as de Azoilda Trindade, Milton Santos, Nego Bispo e Krenak, mas também de Heitor dos Prazeres, Conceição Evaristo, Arthur Bispo do Rosário, Tia Ciata, Vovó Maria, Dona Maria do Jongo e tantas outras pessoas que ajudam a contar as histórias do território que pisamos.
Ao trazer essas presenças para o cotidiano da escola, ampliamos repertórios, fortalecemos pertencimentos e reafirmamos que a educação também é um exercício de memória, reconhecimento e justiça.
Sobre as autoras:

Marianna Freitas é graduada em Ciências Sociais e Pedagogia, com atuação na área da Educação Infantil.
Desenvolve estudos e pesquisas voltados às infâncias, com foco no livre brincar, no desemparedamento e na educação para as relações étnico-raciais. Atualmente, exerce a função de gestora pedagógica na Rede Cruzada, unidade Shopping Nova América, e encontra-se em fase de conclusão da especialização em Docência na Educação Infantil, ofertada pelo Ministério da Educação (MEC).

Raquel Bernardino é professora, graduada em Pedagogia. Atua como Educadora Social na Rede Cruzada, construindo propostas educativas fundamentadas no brincar, na escuta atenta das crianças e nos princípios da educação antirracista.
Defende uma prática pedagógica que reconhece e respeita as diferenças, fortalece o protagonismo das infâncias e promove vivências significativas, favorecendo o desenvolvimento da autonomia, da identidade e do sentimento de pertencimento das crianças.

